Heranças Globais – Abordagens Contemporâneas no campo patrimonial

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Pequeno texto escrito em 2011, para o Curso de Formação Avançada em Museologia, dado em Santa Catarina, Assomada, Cabo Verde.

As questões da mudança da tradição permanecem como uma problemática do campo dos estudos patrimoniais. Uma mudança interrupta e acelerada caracteriza a globalização neoliberal. Um tempo de consumo de novidades, onde o que hoje é inovação, amanhã é já obsoleto. Um tempo onde o património, hoje inventado, é amanhã reinventado exigindo novas imagens e novos protagonistas comunicacionais. Um tempo onde os agentes do património, afetados por alterações estruturais e organizacionais, sentam-se perdidos e cada vez mais se apegam às velhas fórmulas de trabalho tradicionais. A produção cultural está hoje profundamente ligada aos processos de globalização, incorporando processos comunicacionais de elevada complexidade tecnológica, que tem vindo a alterar a relação entre os cidadãos e os seus objetos patrimoniais. Uma desmaterialização dos objetos que tem produzido um consumo incessante de novos e inovadores objetos que incorporam as novas tecnologia.

Podemos mesmo caracterizar que o atual processo de globalização neoliberal se caracteriza pelo domínio das redes de comunicação e saber. Ao invés do processo de globalização liberal, com base na exploração intensiva dos recursos materiais, seja em espaços europeus seja em espaços coloniais, e na relação de dominação violenta sobre o trabalho, seja ele operário seja trabalho colonial, este processo gera dominações através de instituições multilaterais. Na globalização neoliberal encontramos expressões de poderás característicos dos processos de industrialização, nomeadamente a presença dos Estados Nacionais, com as suas políticas e instrumentos de dominação. A continuidade das hegemonias geradas pelas relações de dominação dos poderes soberanos dos Estados continua a gerar violências que tem como objetivo manter e expandir, essas mesmas dominações. Na globalização neoliberal todas as relações sociais estão envolvidas em processos de dominação. Como todos os processos, estas relações influenciam e são influenciadas por esses processos.

Todas a relações sociais, incluindo a cultura, estão sujeitas à influência do capitalismo. De fato a cultura é igualmente afetada por processos de transformação e ajuda a influencia-los. As forças de produção agem sobre a cultura, mas a cultura também pode ser uma força de produção em si, como demonstram tão poderosamente as indústrias criativas. Isto pode não constitui completamente um fenómeno novo, mas a importância da cultura nos processos de transformação é hoje completamente claro” (LONG & LABALI, 2010, 1)

Quando abordamos o problema das políticas culturais nos tempos da globalização, sobretudo se focarmos os últimos trinta anos, há inúmeros campos que se transformaram, influenciando profundamente a abordagem das políticas culturais publicas. No entanto é cada vez mais evidente que o fenómeno das problemáticas culturais ultrapassou hoje o quadro de intervenção das nações e das políticas nacionais. Os fenómenos culturais são hoje também eles globais. Se as preocupações sobre os bens culturais e a preservação do património se construiu no passado, na necessidade dos Estados preservarem os elementos simbólicos, de os protegerem do comércio ilícito e da destruição provocada pelos fenómenos da guerra; hoje as preocupações sobre os patrimónios, sem dúvida influenciadas pelas políticas da UNESCO, é profundamente influenciada pela visão das heranças globais como processo de interação política e económica. E por via das políticas de globalização dos patrimónios temas como as alterações climáticas e a gestão dos recursos naturais, a pobreza e a violência, o desenvolvimento sustentável com base nas comunidades e nos territórios, a desertificação dos territórios e os movimentos migratórios e os consumos territoriais, tornam-se hoje componentes dos estudos sobre as heranças e patrimónios. As heranças globais é um campo de investigação interdisciplinar.

As heranças patrimoniais representam nos dias de hoje um importante campo de trabalho na afirmação dos direitos humanos. O direito à memória é também um dos direitos fundamentais nas comunidades e nos territórios como recurso para a construção do seu próprio futuro. Ele não pode ser olvidado nas estratégias de desenvolvimento territorial. É todavia necessário não esquecer que muitos dos planos e estratégias de desenvolvimento territorial, incluindo as estratégias de desenvolvimento turístico, propostas como “estratégias de desenvolvimento sustentável” são propostas pera territórios e comunidades que foram e continuam em muito casos a ser vítimas de guerras, de conflitos armados, de pobreza e violência social e instabilidade política. O campo da herança já não é hoje mais um campo onde se trabalha a conservação dos edifícios antigos. É necessário ter uma postura mais ativa no campo das heranças patrimoniais para dar resposta aos novos problemas.

Explorando áreas de trabalho: As heranças nos processos de globalização

Globalização: Extensão das relações entre nações  não é um fenómeno novo. O que é novo é a intensidade e a extensão e a característica das formas  de relação que se alargou  a todos os setores da vida.

A vagas de Globalização:

  • A rota da seda,
  • A invasão de Gengiskan,
  • A expansão árabe,
  • Os impérios europeus,
  • O Império do Meio.
  • A partilha de África: Berlim 1895 – O último ato da partilha imperial europeia
  • Após a Segunda Guerra 1945 – (Emergência do EUA e URSS)

Novos protagonistas e o movimento dos não alinhados

1991 – Colapso da URSS e o domínio do FMI (Bretton Woods)Fim das barreiras à globalização e ao “free trad and free exploration”. Um movimento alternativo fragmentado, sem projeto político. Emergência de novos poderes (novas ameaças o fundamentalismo islâmico).

Novos problemas: A crise europeia e A crise do Estado Social. A emergência dos BRIC’s (Brasil, Russia, India e China). A crise da Democracia e da representação.

A crise e a globalização surge sempre muito focada no campo da economia. No entanto, a globalização, (americana e soviética) foram acompanhadas por fenómenos de políticas culturais que correspondem a fenómenos culturais que se manifestaram como campo de conflito. Com o colapso do modelo socialista, a hegemonia cultural do capitalismo emerge como uma alternativa. O modelo cultural do capitalismo está baseado no consumismo, no estimulo à procura desenfreada do novo, dos modelos de vida dos heróis de Hollyood e das industrias mundiais de televisão. É também um modelo que está baseado na apropriação das heranças patrimoniais para consumo turístico.

Explorando áreas de trabalho: Heranças Nacionais e Universalismo

A competição mundial entre o capitalismo e o socialismo após o fim da segunda guerra mundial desenvolve-se num campo dos nacionalismos. O exercício do direito dos povos à autodeterminação e pela emancipação gerou uma luta pela afirmação de Estados com base nos modelos dos estados nacionais da era imperial. As independências dos novos estados, apesar de alguns casos de não-alinhamento, deram origem a opções por um dos dois modelos de afirmação cultural.

A afirmação do modelo soviético com base na sua hegemonia e na submissão dos estados satélites era um modelo que entrava facilmente em conflito com as afirmações e a aspirações nacionais num mundo global. A afirmação da nacionalidade, sobretudo em muito dos novos estados da Ásia, constituiu um dos elementos que demonstram as contradições entre a justa aspiração à liberdade dos povos e os processos de afirmação do poder socialista que exigia a submissão aos interesses geoestratégicos. A rigidez do modelo organizacional soviético não era adequado aos sentimentos nacionais dos estados seus aliados.

Paralelamente, o modelo capitalista, que se afirma nos Estados Unidos da América, é mais versátil no seu diálogo com os modelos de políticas nacionais europeias do pós-guerra. Recorde-se que em Fornaça, o modelo da política cultural de André Malraux, é na sua primeira fase centralizador e favorece a afirmação da França como nação. Por seu lado o modelo de Política Cultural Inglês, com base na afirmação da “British Popular Culture”, que se estabelece numa maior proximidade em relação às comunidades locais, encontra uma maior flexibilidade na sua integração com os fenómenos de integração global.

O modelo de afirmação cultural do capitalismo, no seu diálogo com os nacionalismos, processa-se por contágio através da introdução da modernidade e da inovação nos processos sociais económicos, ao mesmo tempo que as celebrações da tradição são encenadas nos processos culturais como –“invenções da tradição” em “comunidade imaginadas”. Aparentemente o modelo de globalização neoliberal resolveu de forma mais adequada as tensões entre a tradição e a modernidade, fornecendo ao mercado, em expansão crescente, uma constante fluxo de valor de mercadorias, onde o valor do consumo cresce em detrimento do valor do trabalho; ao mesmo tempo que a tradição e a sua representação é apropriada pela manifestações culturais e pelos seus equipamentos, recriando constantemente os sues valores, em função do seu consumo como atração turística. É por essa via que a globalização neoliberal incorpora a cultura como produção cirando um “mercado cultural” onde os processos se uniformizam, com base nas particularidade “individuais”. A tradição torna-se um produto global através do consumo turístico e do lazer (incluindo o entretenimento)

A globalização das nações torna-se possível porque um território já não é apenas uma referencia espacial fechada para a comunidade que o habita, no âmbito da qual é necessário criar uma representação identitário fechada (que inclui e exclui).Os territórios são hoje muito mais permiáveis em termos de representações identitários, porque o processo de globalização cria igualmente múltiplos polos de referenciação que produzem representações identitárias híbridas. As culturas, tais como os territórios e as comunidades são no processo de globalização processos muito mais abertos. Esta porosidade dos espaços é no fundo uma componente do processo de globalização, que produz um movimento crescente de pessoas, mercadorias e fluxos de informação. Um território torna-se assim uma referência múltipla para comunidades globais portadoras de diferentes tradições e que sucessivamente reconstroem modernidades.

É necessário não esquecer que o processo de globalização neoliberal, embora tenha feito emergir novos protagonistas como expressão dos poderes globais, fenómeno que é particularmente evidente pela emergência de corporações que agem globalmente, influenciando globalmente (caso por exemplo das cadeias de comunicação, das multinacionais das industrias químicas, de construção de equipamentos de informática, energia, de transporte, ou de armamento), continua a ter como atores os velhos protagonistas. Os Estados continuam a deter uma parcela de poder. As contradições e as tensões neste cenário global são hoje muito mais complexas de exigentes. As organizações internacionais, como por exemplo a UNESCO, a ONU a União Europeia constituem hoje espaços de compromissos e de afirmação de poderes. Nestes fóruns tanto se manifestam alinhamentos globais, como se efetivam alianças regionais ou “ideológicas”. Algumas guerras chamadas preventivas, no Afeganistão, no Iraque, no Norte de África ou no Corno de África são exemplo deste novo alinhamento de poderes globais.

É também neste quadro que muito das ações de intervenção na esfera dos patrimónios é acionada no âmbito das organizações internacionais. Convenções da Unesco, como a do “património imaterial” (2002) ou da “diversidade cultural (2005) forma aprovadas. A convenção do Património Mundial (1972) constitui hoje um instrumento de trabalho para programas de salvaguarda e proteção patrimonial em todo o mundo, sendo que o impacto desta Convenção da formação de roteiros de lazer e consumo de territórios turísticos não pode deixar hoje de ser reconhecida. Ainda que o real valor destas convenções para as comunidades e território possa ser equacionada, sobretudo na contradição entre a sua vocação universal e o seu uso para objetivos nacionalista, não podemos deixar de considerar que estas convenções são também o resultado duma expressão duma consciência global sobre os problemas das heranças patrimoniais.

Talvez seja na tensão gerada entre a proposta do uso turístico do património como espaço de produção atividade económica, com a implicação que tem no uso desses recursos não renováveis, tal como de resto são também hoje entendidos os recursos ambientais, que a questão da relação entre a globalização neoliberal e as heranças se apresenta com maior acuidade e sensibilidade. Um território, a sua herança e paisagem são normalmente abordados como recursos livres pelas estratégias turísticas. Há naturalmente uma propriedade que condiciona os usos. Todavia, em muito dos casos essa propriedade está sob o domínio público. Estando sob o domínio publico, compete ao estado a sua preservação ao mesmo tempo que lhe compete reconhecer o valor como espaço de uso e lazer, criando as regras de acesso e usufruto.

Como sabemos, a globalização neoliberal tem vindo a pressionar a privatização um conjunto da atividade que se encontram na esfera pública, criando novos modelos de empreendorismo e de serviços. Na esfera da cultura e do património são já bastos os exemplos conhecidos, sempre com base justificação da necessidade de gerar recurso adicionais que permitam as sempre caras intervenções de conservação. O argumento é simples. É preciso que cada equipamento /espaço patrimonial produza os recursos financeiros para se manter. São não é capaz de se sustentar, financeiramente, então está condenado ao desaparecimento pois a economia não pode sustentar no seu interior elementos parasitas que geram consumos não diretamente produtivos.

A redução da análise das questões dos espaços patrimoniais à questão das suas rentabilidades financeira é uma falsa questão. Na verdade o que se trata é de adequar os espaços e equipamentos constituídos como heranças em processos de afirmação das nacionalidades e da afirmação das políticas culturais públicas, aos processos de globalização. O que se trata efetivamente é fazer subtrair da esfera pública o maior conjunto possível de recursos para permitir que as entidades privadas, em regime de franchising de marcas ou de processos, gerem mais recurso financeiros, formatem novos produtos de consumo.

Na verdade a questão que se deve colocar no âmbito da relação dos espaços patrimoniais é a do serviço que esses espaços fornecem às comunidades que o usufruem e que pretendam vir a usufruir, no âmbito da lógica da sua sustentabilidade. Sustentabilidade no sentido de preservar os recursos não renováveis e usar amigavelmente todos os recursos renováveis.

É inegável que a questão das heranças é hoje um elemento importante do marketing territorial. Os fatores de atração do território constituem importante recurso para explorar. Mas também não deixa de ser um importante recurso do território a disponibilidade de uso sustentada dos recursos desse mesmo território pela comunidade. Como já está há muto clarificado, não é a propriedade privada dos espaços que promove territórios dinâmicos e sustentados. É pelo contrário a capacidade de cada comunidade se reinventar em cada território que permite criar a dinâmica de sustentabilidade e de inovação. As heranças são uma componente desses recursos territoriais.

As questões das relações entre o turismo e a cultura são também tensas no âmbito da sua abordagem como processo de hegemonia do Norte sobre o Sul. O processo de formação de patrimónios, sobretudo na sua primeira fase, como sabemos está muito ligada aos processos de afirmação da hegemonia do capitalismo industrial. Francoise Choay trabalhou de forma notável a evolução do conteiro de Património (Heritage) na Europa, para concluir que esse é um fenómeno que responde ás tensões geradas pela perceção do desaparecimento dum mundo (visto como tradicional) e a emergência dum novo mundo (da industria e da técnica) que rapidamente torna amanhã obsoleto o que hoje é novo. Assim, os processos de patrimonialização, corresponderiam a uma reação das sociedades, para preservarem os sentidos da memória.

A crítica que tem vindo a ser feita a esta análise é exatamente a sua conceção etnocêntrica. As mais recentes abordagens das questões patrimoniais, sobretudo a partir da aplicação da Convenção do Património Mundial de 1972, onde muito dos novos estados membros têm vido a incluir os seus elementos patrimoniais, tem permitido verificar que o fenómeno de patrimonialização não é idêntico em todas as comunidades. Muitas comunidades, por exemplo, integram no processo de patrimonialização o ciclo de produção do objeto patrimonial, incluindo a sua reconfiguração, o seu uso e a sua “desagregação” ou encasulamento (casuling) .

Através da progressiva consciência de que o objeto patrimonial não é necessariamente algo que se conserva, mas algo que se renova ciclicamente o processo de patrimonialização deixa de se fixar exclusivamente na materialidade e inclui os gestos, os ritmos dos eventos, etc. Aquilo que vulgarmente se tem vindo a classificar como patrimónios intangíveis.

Uma outra questão relevante para os Estudos Patrimoniais, que decorre da relação entre o global e o particular e a consciência de que as narrativas se constituem como representações, expressar-se na noção de autenticidade. A construção de narrativas nos espaço de patrimónios conduziu á criação da noção de pós-autenticidade. Na convenção do património da humanidade já não se aborda a questão da autenticidadedo objeto patrimonial, mas introduz-se a questão da “relevância” para a “compreensão do Valor universal”. A consciência da representatividade do objeto transforma-se igualmente num processo. (A representação do objeto não é valorado pelo seu significado interno (como uma relíquia), mas como um significado posicional (pelo seu posicionamento em relação à produção cultural que representa).

O objeto patrimonial como processo deixa de ser valorado apenas pela sua singularidade, sendo-lha adicionado o valor da universalidade, permitindo essa relação a criação duma mediação entre nós e os outros.

O reconhecimento do outro presente nas declarações sobre a Diversidade Cultural e da Herança Imaterial faz emergir ainda uma questão final. A da participação da comunidade. A consciência do que as narrativas nacionais se constituem como discursos das elites sobre os seus próprios processos de dominação, ainda que muitas das vezes se alicercem no conceito legitimador do “povo”, permite incluir na narrativa patrimonial outros discursos. Na constituição dos discursos sobre os patrimónios, afirmam as declarações, importa legitimar o discurso a partir da participação das comunidades. Uma participação que implica o seu envolvimento nos processos de patrimonialização. O envolvimento da comunidade no processo de classificação dos bens patrimoniais constitui um primeiro desafio para o reconhecimento da diversidade. O discurso deixa de ser um discurso eminentemente produzido pelos “sábios” e permite a inclusão do outros “saberes”.

Explorando áreas de trabalho: Heranças Globais e a Ética

Nos últimos sessenta anos, após o termo da guerra mundial e a pós a vaga de independências dos povos sujeitos ao colonialismo a globalização dos mercados e as transformações tecnológica produziram uma desregulação das comunidades. Das organizações fundadas no local criaram-se e alargaram-se as escalas de interdependência das mercadorias e das pessoas. A globalização dos mercados é feita fundamentalmente através da violência contra os que afrontam o modelo de relação capitalista. Este processo de globalização, que se estende progressivamente ao todo o espaço de formas crescentemente intensivas, permite que as relações entre comunidade deixem de se constituir apenas na base da continuidade territorial e na base da comunhão dos princípios. A compressão do temo e do Espaço é facilitada pelo alargamento e intensidades das redes de comunicação (Castells, A Sociedade da Informação).Esta compactação do espaço e do tempo cria outras proximidades na cultura.

Este fenómeno aparentemente contraditório, que gera uma pressão para a uniformidade ao mesmo tempo que gera um campo para a afirmação, por vezes violenta das manifestações da individualidade e da diferença. No campo dos processos patrimoniais, a intensificação e o crescimento da comunicação que reduz o espaço e o tempo introduz novos desafios nas formas como são mobilizados para os diversos processos de intervenção dos agentes económicos e políticos. A herança é hoje uma problemática mobilizada para os processos urbanos, para os processos de desenvolvimento territorial, ao mesmo tempo que as questões culturais são chamadas para resolver processos de destruturação do tecido económico e social. Esta capacidade de ao mesmo tempo constitui um recurso e um processo de ação faz com que a intervenção no campo patrimonial assuma uma centralidade que ultrapassa o anterior campo de intervenção, relativamente fechado e sempre instável, dos profissionais e dos sempre escassos recursos organizacionais.

É neste domínio que questões do património ganham nova dimensão. Por exemplo as questões relativas às alterações climáticas podem encontrar nas práticas e nos saberes das comunidades soluções capazes de responder a uma escala adequada aos desafios duma comunidade. O resgate de sistemas de conhecimento, de práticas e de saberes é hoje não só um imperativo de cidadania (de afirmação dos direitos humanos), como se constituem como ferramentas para intervenção social. Esta abordagem permite conceber uma “Conservação Patrimonial Sustentável”, como um modo de uso sustentável dos recursos sociais.

Uma outra abordagem da ética nas questão das heranças deriva da consciência, cada vez mais presente de que a questão das heranças culturais se podem constituir como uma componente da necessária luta contra a pobreza, contra a fome e pela proteção do ambiente. As heranças culturais não constituem apenas um capital das populações locais, mobilizado para diversas atividades sobre o território. Elas constituem igualmente um capital simbólico (pela produção de identidade social), que estimula a consciência da pertença à comunidade, contribuindo para a regulação e a coesão social dessa mesma comunidade.

O turismo solidário, uma pratica que se tem vindo a desenvolver em diversos locais, que tem como base uma partilha de recursos com as comunidade locais, bem como alguns exemplos de “espaços de intervenção comunitária solidária” que se alicerçam na cultura local, para desenvolver atividades económicas de base local, com praticas ambientais sustentáveis, produzindo recurso que são aplicados nas comunidade, constituem hoje exemplos que permite entender a intervenção na esfera do património como uma estratégia de desenvolvimento local dum território.

As questões éticas no trabalho sobre heranças é naturalmente um campo de complexidade. A questão base na intervenção sustentável continua a ser o processo do uso dos recursos salvaguardando o seu uso para as gerações vindouras. Essa postura implica um desfio importante quando se cruzam fenómenos de desenvolvimento territorial e turístico. O envolvimento de muitas empresas privadas nos processos de conservação, ao mesmo tempo que os estados reduzem a sua intervenção pública no campo da preservação é um risco acrescido. Como bem sabemos no passado, a opção e a avaliação pelos investimentos em conservação e preservação dos bens patrimoniais não está imune à produção de narrativas simbólicas que privilegiam determinados bens simbólicos em detrimento de outros não reconhecidos como valores. Este é um risco presente e crescente na compatibilização entre os valores simbólicos e os valores económicos.

Para minimizar os riscos da valorização estritamente económica das intervenções sobre os bens patrimoniais e para aumentar a capacidade de salvaguarda dos valores simbólicos duma comunidade, mantendo a sua disponibilidade de uso como recurso para o desenvolvimento tem vindo a ser desenvolvido um modelo de responsabilidade social pela criação de compromissos. Estes compromissos constituem-se como documentos reguladores das relações entre as comunidades e os agentes económicos, insistindo nos elementos da sua responsabilidade de comportamentos. É certo que nem sempre estas cartas de heranças, ou cartas patrimoniais se têm constituído como instrumentos eficazes de gerar um equilíbrio entre a ética da responsabilidade social da conservação e salvaguarda e a ética dos negócios privados. Mas não deixa de ser também evidente, que as organizações internacionais, as instituições nacionais e demais organizações representativas das comunidades não poderão prescindir destes instrumentos de negociação e compromisso como modo de gestão dos bens e heranças patrimoniais.

A questão da ética é também a chave para a analisar as questões das relações entre as heranças e os conflitos. Embora a própria herança seja muitas vezes a razão do conflito. A imposição dos valores do ocidente em relação aos bens culturais, muitas vezes resultante das praticas dos quadros técnicos das organizações internacionais e a incapacidade de ler as representações patrimoniais das comunidades onde atuam, é certamente uma das criticas que se tem constituído. A perceção e a vivência das comunidades nem sempre são compatíveis com os princípios de preservação de heranças e da sua disponibilidade como espaço publico.  O acesso aos bens culturais e a sua relação com a preservação constitui hoje, face ao largamento constante do campo de intervenção das ações patrimoniais um campo de debate. Bastará evocar a questão do “património genético da humanidade” para facilmente entender as questões éticas que se colocam entre a preservação e a comunicação dessas heranças, nomeadamente na relação entre o particular e o universal.

Uma outra questão ética que se levante no campo dos fenómenos patrimoniais resulta da já antiga problemática da proteção dos bens patrimoniais contra os fenómenos de saque e conflitos violentos, bem como contra o comércio ilícito desses bens.  Embora diversas convenções internacionais abordem esta questão, verifica-se que as suas disposições estão em muitos casos obsoletas, contraditórias com disposições internas de muitos estados e em muitos casos colidem com os mercados de arte em muitos países. Um exemplo disso, encontramos na produção de esculturas em madeira, atividade florescente em muitos países africanos, numa atividade que assegura a sobrevivência de muitas famílias, mas que à luz de algumas destas disposições internacionais, conjugadas com algumas disposições internas de vários estados, dificulta a mobilização destas herança como recurso para o desenvolvimento.

No campo da relação da ética com o património num mundo global emerge uma problemática paradigmática. A relação entre o universal e o excecional. Muitos países, de que a China é um exemplo paradigmático, reivindica o deu direito a desenvolver o seu próprio modelo económico, com regras distintas do modelo global, ou o caso do modelo social europeu face ao modelo de livre-câmbio anglo-saxão que afeta a Europa das nações. Nesta problemática é muito tentador que as questões universais do património rapidamente se constituem como elementos particulares. Esta é uma estratégia que tem vindo a ser seguida em vários contextos. Isto permite antever que o campo dos estudos patrimoniais e das heranças também venha a constitui um campo de tensão nos processos em curso para a resolução da crise geral que atravessa o mundo capitalista. De qualquer modo, qualquer que venha ser o desfecho para a resolução da crise, é hoje reconhecido o fator de distinção que as heranças patrimoniais permitem introduzir nas praticas do desenvolvimento.

Bibliografia

LABADI, Sophia e LOUNG, Colin (2010). Heritage and Globalisation, London-New York, Routledge, pp  1-16)

Castells ( ) A sociedade da Informação

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