Sustentabilidade Transdisciplinar-Inteira como Sociomuseologia de Delambre

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A tese é constituída por um volume encadernado com 443 páginas, contém o índice geral e lista de abreviaturas. Não está presente índice onomástico. A sua redacção é clara, não obstante a presença de algumas gralhas que não afetam a compreensão das ideias apresentadas. Está dividida em duas partes, organizada em nove capítulos, e uma conclusão.

Do ponto de vista substancial o autor argumenta que a sustentabilidade transdisciplinar inteira é uma forma de abordagem da sociomuseologia. A tese, nos seus vários capítulos demonstra esse argumento. A demonstração é feita a partir duma crítica do referencial teóricos e duma reflexão crítica das metodologias usadas na museologia a partir da análise do caso da Favela de Santa Marta no Rio de Janeiro, no brasil. A partir do Estudo de Caso, o autor reflecte sobre o processo de investigação ação em que se envolveu, argumentando que a museologia se constitui como um instrumento de intervenção social, no âmbito da lógica da procura duma emancipação social e requalificação do território.

Demonstra capacidade de uso das metodologia de trabalho dobre a memória social e construção de inovação social, demonstra dominar técnicas de trabalho científico, como a história oral e as narrativas biográficas, as técnicas de análise de conteúdo e de intervenção social, bem com a compreensão das dinâmicas socio urbanas. As metodologias são usadas na segunda parte da tese na procura da compreensão da complexidade da problemática socio urbana da Favela, onde se apresenta uma análise detalhada duma intervenção social cosmopolita.

Acresce ainda que a tese se apresenta como uma reflexão inovadora sobre os interessante processos museológicos que se estão a desenvolver no Rio de Janeiro, onde se propõe uma prática museológica emancipatório, contribuído para o empoderamento das comunidades, para a relevância dos saberes locais e da valorização dos patrimónios comuns.

O problema inicia-se como um processo de registo da remoção de favelados. O autor dá nota da implementação de processos hegemónicos de requalificação urbana, e procura num primeiro momento registar a memória da favela. Dessa descoberta Delambre problematiza. Interroga-se sobre o conflito no território. Procura saber se a tensão presente, o poder urbano hegemónico face ao poder comunitário subordinado, preserva as memórias dos lugares. Interroga-se de que forma a memória se pode constituir como ferramenta de cartografia do espaço. Propõe a construção duma poética do espaço (Zeitgeist) como referencial da sociomuseologia

Face a essa problemática questiona, de forma crítica as metodologias e as técnicas que dispões. Interroga a História Oral, os Estudos sobre a Memória Social e questiona o processo de intervenção na mediação museológica em contexto urbano.

Essa é contudo um interrogação que vem de fora da museologia, procurando dialogar com essa sociomuseologia para a demonstração da sua identidade matricial com a Sustentabilidade Transdiciplinar Inteira. Traz-nos, pela primeira fez para a reflexão museológica esta proposta crítica. Fá-lo a partir duma análise da ideia de sustentabilidade, transdisciplinaridade e integralidade. Insere-a numa proposta de procura duma transição epistémica. Uma procura do conhecimento como fundamento da consciência do mundo. Uma consciência que implica um questionamento de problemas relevantes para as comunidades, e dum posicionamento como investigador comprometido com as ações.

Sustentabilidade e Transdisciplinaridade não são conceitos estranhos à museologia. Critica e ao campo epistemológico que reivindica, baseado nessa relação entre os seres humanos com os objetos socialmente significativos, num determinado contexto. A matriz trenaria, que nos fala Mário Chagas. Uma museologia critica que se baseia em processos que partem dos problemas das comunidades, que procuram contribuir para a sua emancipação, mobilizando as memórias, os saberes e os recursos locais, envolvendo as comunidades na construção do seu presente. Uma museologia que acredita que através do encontro dos seres humanos é possível pensar e treinar a ação.

A partir da questão da Sustentabilidade Transdiciplinar Inteira, que argumenta como necessária adjectivação do paradigma da racionalidade científica subjacente à tensão entre remoção/urbanização, inicia um longo e virtuoso dialogo com a sociomuseologia. Procura os fundamentos do movimento de renovação da museologia a partir dos seus atores fundamentais, Henri Riviere, Huges de Varine e Mário Moutinho na Europa. Faltaria talvez aqui acrescentar a experiência teórica no Brasil, de Waldisa Russo, Cristina Bruno e Maria Célia, ou o meu colega de júri Mário Chagas, que têm produzido uma interessante reflexão à sociomuseologia das Américas, ou mesmo uma palavras sobre as experiências dos museus comunitários no México.

Se até este quarto capítulo sentimos que esta Tese poderia ser apresentada num outro qualquer camo disciplinar, agora sentimos um aproximar lento mas consistente ao centro da função social do museu e da teoria museológica. A questão do desenvolvimento dos ecomuseus, dos museus comunitário, dos processos de direito à memória, dos conceitos de desenvolvimento do território é apresentada com desenvoltura. Uma desenvoltura que os contextualiza numa procura do espírito do tempo.

Ao atingir o quinto capítulo, na sua busca do “Geistzeit” da sociomuseologia, Delembre demonstra uma parte da sua tese sobre a conformidade da sociomuseologia com a Sustentabilidade Transdisciplinar Inteira. Inteira porque mais uma vez remete para a ruptura epistémica da racionalidade, e para a busca duma novo paradigma emergente, ainda difuso, mas que procura ultrapassar essa divisão do saber em disciplinas, defendendo a necessidade da integralidade. Uma ideia que emerge na mesa Redonda de Santiago do Chile em 1973, e que evolui até 2013, nessa Poética de Museologia que busca o encontro, já não só pela relação entre os sujeito e o objeto no espaço, mas através da consciência da intersubjectividade que emerge na tensão criativa entre a memória e a inovação social.

Na segunda parte o autor apresenta-nos o Estudo de Caso propriamente dito: a tensão entre os dois modelos urbanos, o modelo estatal e o modelo da comunidade. Trata-se duma análise que decorre duma metodologia de pesquisa ação. Dum envolvimento do pesquisador com esse objeto de estudo. Um envolvimento empenhado num processo com um claro sentido político. Talvez num ou noutro caso um aprofundamento da reflexão teórica possibilitasse um outro alcance desta tese. E aqui, sem desmerecer o esforço de profunda reflexão teórica que foi feita, da sua relevância e pertinência, permitam-me, porque aqui estamos numa prova de académica, onde o confronto das ideias é essencial, questionar o trabalho de Delambre em três pontos.

A primeira é sobre os métodos da História Oral. Ao longo da análise a oralidade trespassa e através das entrevistas realizadas a análise demonstra as tensões e os diferentes posicionamentos presentes na comunidade. Dependendo dos diferentes papéis dos atores no território, demonstra-se diferentes posições. Isso demonstra da validade do método, mas fica por entender, de que forma é que o processo museológico pode prosseguir. Ora como temos vindo a trabalhar nas narrativas biográficas não podemos deixar de questiona-lo sobre esta questão. Como procura descobrir o sentido social a partir do questionamento individual?

A segunda diz respeito à questão do desenvolvimento. Já afirmamos acima a relevância da análise feita. Faltará, e aqui deixo à sua consideração o tratamento dessa questão para o futura, … faltará também aqui um posicionamento crítico sobre a teoria do desenvolvimento. Uma ideia que é ela uma construção teórica do mundo hegemónico, e que tem vindo a ser criticada por autores como Arturo Escobar, Gilbert Rist, Arjum Azai, e Sousa Santos. Questões que estes autores revelam, como por exemplo a quês definição das necessidades materiais e espirituais dos lugares que é feita por um processo de construção cultural hegemónico, ou mesmo, questões como a construção de agendas próprias com base nos direitos sociais (onde o direito à memória aqui citado é um exemplo), poderiam enriquecer este trabalho.

O desafio é pensar a partir da multiplicidade de trajectórias onde cada local tem de se pensar a si em relação com os outros lugares. Se a modernidade e a globalização criaram identidades fragmentadas, (diced identities) é necessário pensar a partir dessa diversidade como pluralidade e reconstruir caminhos diferenciados. Se aceitarmos o conceito de que temos que ultrapassar a ideia dos caminhos comuns que a modernidade parecia defender com a noção de desenvolvimento, e se aceitarmos que efectivamente estamos num período de transição paradigmática, isto significa, não só que os conceitos de desenvolvimento e terceiro mundo fazem parte do passado, como que necessitamos de criar novos nomes para as nossas práticas.

Finalmente a terceira e última questão que lhe gostaria de colocar é a de que sobre o lugar da memória e do esquecimento no âmbito do processo que desenvolveu. Temo também aqui vindo a trabalhar a questão do uso da memória para a resolução de conflitos. Este lugar é um espaço de tensão. Temos na sociomuseologia alguns trabalhos que procuram encontrar caminhos alternativos, como por exemplo do trabalho de Pierre Maryland sobre o riso (com base em Bion por exemplo) onde a proposta duma museologia dos afetos se enquadra. A questão é saber que proposta pratica se propõe aplicar com base nesta poética museológica.

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