Sobre a questão da conservação e da inovação nas línguas: o caso africano II

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Prosseguindo as questões do postal anterior, sobre os processo de conservação e inovação da Língua M’Bokolo fala da questão da memória. A partir do caso francês, onde os africanos que aí residem são fundamentalmente imigrantes, uma categoria que ultrapassa as classificações sobre os lugares de origem, são abordadas as suas heranças e memórias.

Lembra M’Bokolo, que com o Projeto da rota do Escravo, se tomou uma consciência do fenómeno da escravatura e dos seus resultados para as sociedades africanas. Esse reconhecimento foi todavia, em França, uma memória controvesa. Vejamos como:

Já durante a colonização, os colonizados começaram a viver em França e esse movimento prolongou-se após a colonização; outras pessoas vieram, quer dos departamentos ultramarinos ou dos territórios ultramarinos franceses, quer do antigo império francês, quer de outros territórios africanos. Então isso acabou por trazer grandes problemas porque as pessoas que viviam aqui começaram a colocar-se questões. As crianças iam à escola, e os próprios africanos não percebiam muito bem como é que estavam aqui e as pessoas lhes continuavam a perguntar: “De onde vem, porque está aqui?” E o trabalho da memória foi algo de fabuloso porque entre os africanos se começou a evocar o passado, dizendo: “Estamos aqui por causa da colonização”; enquanto na minha geração se dizia: “Estamos aqui devido a Lumumba e não voltaremos”. E depois as pessoas diziam: “Não ficaremos aqui pouco tempo.” Começou-se a falar da colonização e seguidamente da escravidão; em 1981, quando François Mitterrand tomou o poder, este debate começou em França, mas ao mesmo tempo, nos departamentos ultramarinos; então apercebemo-nos de que as pessoas começavam a falar de escravidão. Aqui, em França, houve muitos problemas porque quem saía dos departamentos ultramarinos, que são procedentes da escravidão, considerava que a França metropolitana e “os africanos” eram identicamente responsáveis pela sua escravidão. Nós, os outros africanos, tentávamos explicar que os africanos entraram na máquina infernal da escravidão, eu diria, obrigados e forçados. Por conseguinte, se se coloca o problema da escravidão, há várias maneiras de o pôr e uma das maneiras de o fazer é a partir, eu diria, das duas extremidades da cadeia: a extremidade que iniciou o processo e a extremidade que beneficiou do processo, deixando entre parênteses os anéis intermédios sobre os quais discutirei mais tarde. Este debate, importante, correspondeu de resto aos debates que tiveram lugar ao mesmo tempo nos Estados Unidos, na América do Sul, nas instituições internacionais, nomeadamente a UNESCO, com o projecto A rota dos escravos. Finalmente, é necessário reconhecer que o meio associativo francês se bateu muito bem, já que de degrau em degrau se chegou ao momento em que um deputado originário da Guiana ousou apresentar um projecto de lei sobre a escravidão. O que se passou como desafio de memória é interessante porque, com efeito, este projecto não foi discutido. Não houve debate, nem sobre a História nem sobre a memória, e assim formou uma maioria para dizer sim à lei. Era uma maneira – como se diz em francês – de botter en touche. Não se discutia e acabava-se com o problema. Então pedimos que, dado que se reconhecera que era um crime e que era necessário repará-lo, a representação do passado da França, isto é, os cursos de História, os cursos de Filosofia, o curso de Literatura, deviam integrar estas dimensões da História. Ora, o combate continuou de maneira sub-reptícia porque este assunto não foi cuidado quem estava contra esta lei; encontrava o meio para responder fazendo votar aí também uma lei que declara que a colonização teve aspectos positivos. Se a colonização teve aspectos positivos, teve-os em relação a quê? positivos em relação ao estado das sociedades africanas antes da colonização? Ora, nós defendemos a ideia de que o estado das sociedades africanas, antes da colonização, se explica em parte pela escravidão. Por conseguinte era uma maneira de apagar esta questão. E sabe que a dinâmica em questão é extremamente interessante. Quando se discutia esta lei sobre a colonização, arderam dois edifícios em Paris, com africanos no seu interior, o que levou a que as pessoas começassem a dizer: “Aí está, temos de facto um problema, um problema de memória, de História, um problema de discriminação”. Os que estão contra nós dizem que queremos fazer o comunitarismo. Ora, nós, que trabalhámos sobre as etnias, sobre as nações, sobre povos, sabemos que os africanos em França não formam uma comunidade, nem de língua, nem de religião, nem de origem, nem de cultura. Formam um todo, na medida em que vieram por serem vítimas de discriminação, uma discriminação memorial e económica. Portanto, para fazer com que não haja comunitarismo, é preciso lutar contra as discriminações. Se nos cursos de História e de Geografia se integrarem as tomadas de posição de Montaigne sobre os indianos e os africanos, em vez de se falar dele apenas como o pensador dos Ensaios, etc., e se em vez de se dizer o Grande Século de Luís XIV, se disser, sim é o Grande século de Luís XIV, mas ele tratou mal os protestantes e os Africanos, etc., não há mais comunitarismo. Este é um combate extremamente apaixonante porque a França está a descobrir que a nação, assim como as etnias, são processos, produções, pode-se mesmo dizer, invenções (risos) e, portanto, podem aí ser injectadas novas questões. Então, estamos a dizer a mesma coisa que para África. O que é que queremos fazer com estas colectividades que aí estão? Desta maneira, damo-nos conta de que a questão da especificidade africana é relativa.”

Um modo simples de fazer o debate sobre a questão da Escravatura. Mas o que isso contribui para o tema do postal, sobre a conservação e inovação das línguas. africanans

Já de seguida veremose

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